Enquadre e espere

Este clique foi feito em Mandalay, Mianmar. Mais precisamente, na Kuauk Sit Tan, a extensa e movimentada rua que atrai turistas que desejam souvenirs e esculturas de todos os tamanhos imagináveis. A névoa levantada pelas serras elétricas chega a cobrir os artesãos da cabeça aos pés com a poeira branca vinda das pedras. O quadro retrata três elementos bastante presentes na paisagem urbana birmanesa: Budas, motocicletas e monges.

A fotografia é, provavelmente, o campo artístico que produz seus resultados em menor tempo. Esta cena, por exemplo, foi registrada pelo sensor da câmera em 1/125 avos de segundo. Não é de estranhar, então, que a fotografia atraia (ou será que desenvolve?) ansiosos e impacientes. Eu mesmo abandonei a prática do design gráfico por culpa de projetos e processos excessivamente longos e cansativos.

Encontrei, com a câmera, finalmente o imediatismo que buscava. Até a página dois. Logo descobri que, como em todas as artes, esta também exige uma enorme dose de paciência, constância, insistência e persistência. Seja nas pequenas fotos ou nos projetos de longo prazo.

Foi estudando o belíssimo trabalho do fotógrafo norte-americano Sam Abell que aprendi uma das lições mais valiosas para a minha prática. Nas palavras dele: “compose and wait” (enquadre e espere).

Embora minhas fotos costumem focar em ações humanas, quando ando por aí, na maior parte do tempo estou à procura de planos de fundo. É a partir do fundo que aprendi a compor o quadro. E é aí que entra a paciência.

Na foto abaixo, não demorou mais do que cinco ou dez minutos para que o monge completasse minha composição. Às vezes, chego a esperar trinta, cinquenta minutos. Em outras ocasiões preciso retornar ao mesmo lugar duas, três, dez vezes na esperança de que algo aconteça diante da lente. Mas Abell garante – em algum momento algo irá acontecer. Basta esperar.

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Marcelo Salvador

Formado em design gráfico, Marcelo descobriu o gosto pela fotografia trabalhando como editor de arte na revista Vogue. O que era hobbie virou paixão e, desde então, Marcelo anda sempre com uma câmera em mãos, registrando momentos, lugares e pessoas. Autodidata, divide aqui seus cliques pessoais preferidos.

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