Foi sorte

Foi sorte. Mal pude pensar. Foi o tempo de erguer a câmera, três ou quatro cliques, e ele já havia cruzado o pátio. Ele ajeitava um dos panos que compõe seu traje vermelho, típico de Mianmar, como um toureiro em ação. (Os trajes mais alaranjados costumam indicar a Tailândia.)

Foi sorte. Um dos cliques o guardou flutuando, seu traje flamejando no ar como uma bandeira hasteada. Quando vi o resultado, ainda na tela da câmera, eu sabia que tinha algo especial. É, até hoje, uma das minhas fotos preferidas.

Eu havia estado na parte externa do monastério no dia anterior. Fica em Mandalay, cidade turística da antiga Birmânia, no bairro conhecido pelo artesanato local, em especial as estátuas do Buda feitas de gesso ou pedra. Da rua, um corredor estreito e escuro dava acesso ao prédio de dois andares com sua escadaria dupla em curva. Mas era perto do meio-dia, a luz estava forte demais e pouca coisa acontecia ali. Fui embora sem fotos.

Consegui retornar no dia seguinte. Agora era fim de tarde, quando a luz quente e suave parece deixar tudo mais fotogênico. Um monge varria as folhas da parte externa, outros iam e vinham de um canto a outro. Foi quando um rapaz se aproximou e puxou conversa. Não era monge, vestia uma camisa de manga curta. Presumi que era um dos responsáveis pelo monastério. Com certa dificuldade entendi que queria que eu subisse a escada para conhecer a parte interna. Fiquei receoso com a hipótese de desperdiçar a boa luz, mas aceitei o convite.

Foi sorte. Já sabem o que aconteceu depois…

É do fotógrafo documentarista Michael Yamashita uma das frases que mais gosto: “Fotógrafos são pagos para ter sorte”. Quem vive de fotografia há de concordar que dependemos muito dela. Toda preparação do mundo é incapaz de prever o instante em que tudo se alinha de maneira mágica: uma luz, um olhar ou um gesto que jamais conseguimos reproduzir forçosamente.

Sim, eu estava preparado, no lugar certo, na hora certa, com a câmera em mãos e pré-programada para a situação de luz do local. Mas… foi sorte.

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Marcelo Salvador

Formado em design gráfico, Marcelo descobriu o gosto pela fotografia trabalhando como editor de arte na revista Vogue. O que era hobbie virou paixão e, desde então, Marcelo anda sempre com uma câmera em mãos, registrando momentos, lugares e pessoas. Autodidata, divide aqui seus cliques pessoais preferidos.

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