Natureza-viva

A fotografia tem uma particularidade especial. Diferentemente de outras formas de artes visuais, sua matéria-prima é a luz refletida. Uma foto é um vestígio de algo que aconteceu, um rastro do que estava diante da lente. Enquanto a pintura e a escultura, por exemplo, são frutos da imaginação do artista ou de uma interpretação dos fatos, a fotografia é uma verdadeira “pegada” da própria vida, que por ali passou. Ao mesmo tempo que precisa do tempo e do espaço para poder existir, o resultado final é inanimado e bidimensional. Uma mera ilusão de um instante real.

Essas dualidades são o que me encanta nessa forma de arte tão verdadeira, porém tão elusiva.

Quando fotografo pessoas, a “vida” está obrigatoriamente implícita. Mas ao registrar situações desabitadas, tenho como desafio fazer com que algum fragmento da vida se mostre presente. A ideia do “momento decisivo”, tanto citado por Cartier-Bresson, não se aplica apenas à fotografia de rua.

Nada consegue ser mais estático do que uma fotografia. Ainda assim, as boas fotos são aquelas que pulsam, que respiram… que dançam. Uma fração do tempo que justifique o clique, que não valeria a pena ser feito um segundo antes ou um segundo depois.

Na nossa língua, chamamos algumas imagens que não tratam de pessoas de “natureza-morta”. Prefiro o termo do inglês, “still life”, que, em uma possível tradução literal, compreende que imagens congeladas “ainda são a vida”.

Marcelo Salvador

Formado em design gráfico, Marcelo descobriu o gosto pela fotografia trabalhando como editor de arte na revista Vogue. O que era hobbie virou paixão e, desde então, Marcelo anda sempre com uma câmera em mãos, registrando momentos, lugares e pessoas. Autodidata, divide aqui seus cliques pessoais preferidos.

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