O pior elogio

Que bonita essa foto. Às vezes escuto isso de alguém que olha meu trabalho. A intenção é boa, não há nada de errado em uma imagem ser bonita. Mas de todos os elogios que podem ser desprendidos a um fotógrafo que tenta levar seu trabalho a sério, este me faz pensar que falhei um pouco.

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Em Bagan, cidade do interior de Mianmar, visitamos a casa de uma família onde meia dúzia de crianças do vilarejo com ruas de terra passava pela cerimônia em que se tornavam monges (uma espécie de Primeira Comunhão do budismo).

Para elas, aquele ritual que mobilizou toda a comunidade próxima significava transformação e evolução. Tornar-se monge faz parte da cultura dos birmaneses. Em algum momento de suas vidas, muitos passam um período em um monastério budista. O tempo longe de casa pode ser curto, como um ano, ou longo, se escolherem permanecer na vida monástica. De qualquer maneira, será uma jornada importante e de crescimento pessoal e espiritual.

Ter a cabeça raspada e os cabelos coletados e guardados pelos familiares é o primeiro passo para um futuro que pode ser bastante beneficiado por essa escolha. Os monastérios funcionam como escolas, onde se aprende de tudo, inclusive inglês (segunda língua oficial do país, por conta da colonização britânica, mas que poucos falam com fluência). É uma boa alternativa num país com tantas famílias sem recursos financeiros. Em um dos monastérios que passei, conversei com um garoto por volta dos seus 16 anos que adorava falar em inglês e fazia planos de cursar uma faculdade nos Estados Unidos.

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Perdoem minha franqueza – sou grato a todos que elogiam minhas fotos. Minha provocação é fruto do momento que estou vivendo, assim como o dos meninos nas fotos, de transformação e evolução. Hora de avaliar meu próprio trabalho e traçar as próximas direções.

Mais de dois bilhões de fotos são tiradas todos os dias ao redor do mundo e, no entanto, só algumas sobreviverão ao tempo. Como é possível ser ouvido em meio a tanto barulho? Penso que não é fazendo belas imagens.

Espero conseguir ir além e contar histórias maiores, com fotos que sejam interessantes, fortes, informativas, que causem alguma emoção, ou que, ao menos, mereçam ser chamadas de boas antes de belas.

Marcelo Salvador

Formado em design gráfico, Marcelo descobriu o gosto pela fotografia trabalhando como editor de arte na revista Vogue. O que era hobbie virou paixão e, desde então, Marcelo anda sempre com uma câmera em mãos, registrando momentos, lugares e pessoas. Autodidata, divide aqui seus cliques pessoais preferidos.

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