Profissão “dobrada”

Sempre almejei ser dentista, e me dediquei exclusivamente à profissão por longos anos sem jamais imaginar que um dia trocaria os instrumentais por papéis. Sim, papéis.

E para contar como esta mudança aconteceu, resgato na memória uma lembrança muito saudosa e singular da minha vida. Quando meu avô paterno, imigrante japonês, me ensinou a fazer o tsuru (origami da ave japonesa, conhecida como grou, que simboliza sorte, felicidade e vida longa).

Recordo com clareza a cena em que ele, sem falar uma palavra em português, se aproximou com papéis coloridos em mãos, se sentou calmamente e simplesmente começou a dobrar. Nesta época eu tinha uns nove anos de idade e apenas copiei cada dobra que ele fazia, sem saber o que de fato estava acontecendo.

Voilà, eis meu primeiríssimo tsuru!

Começou aí o meu amor pelo papel. Também recordo que meu maior sonho de infância era ter um balcão, só meu, para embrulhar as roupas vendidas na loja dos meus pais. Ficava admirada como minha mãe embrulhava com tanta perfeição. E eu lutava, frustradamente por uma coordenação motora precoce… Mas só hoje, trabalhando com origamis há 7 anos consigo fazer esta auto-análise “freudiana”, e compreender com clareza o processo na sua plenitude.

A troca de profissão não foi mágica, nem da noite para o dia, e tampouco dramática, como muitas pessoas imaginam. Um passo de cada vez, pois acreditem, antes de dobrar papéis, eu fui sommelier de vinhos de um dos melhores restaurantes japoneses de São Paulo, o Jun Sakamoto (para mim, o melhor até hoje). E lá pude resgatar o orgulho, e sentir de perto a admiração das pessoas pela cultura japonesa, já que crescer escutando na escola os coleguinhas gritando incasáveis: “Arigato”, “Sayonara” etc. não foi das melhores experiências para mim ou para qualquer criança de olhos puxados, gerando uma rebeldia contida pela descendência oriental.

Ainda no restaurante, um ambiente sério e requintado, passei a fazer origamis para as crianças brincarem e se distraírem durante o jantar. Talvez esse tenha sido o “clique” ou aquele sinal que a vida emite para dizer que tudo pode mudar de repente, sabe? E o universo foi conspirando a favor.

Nesta época conheci a Isabella Suplicy, uma pessoa incrível, que me acolheu de coração e alma quando eu levei singelas amostras de origamis e lembrancinhas. Ela foi a minha madrinha, pois acreditou tanto no meu dom que nem eu mesma sabia que possuía. E eis que tenho meu primeiro pedido de origami: 4.000 forminhas de doces e muitas flores. Pensem numa pessoa feliz? Euuuu!

Daí para frente, fui focando cada vez mais. Pesquisei muito, treinei novos origamis e fui na batalha atrás de parcerias, na luta para transformar a arte em minha profissão. Havia um nicho na área de casamentos, eventos corporativos e um público específico que sempre prestigiou origamis.

Quando me dei conta, estava vivendo com origamis. Passei então a me dedicar exclusiva e integralmente e há sete anos tenho uma pequena empresa, e sou eu que cuido de tudo, tudinho. Há mãos que me ajudam nas dobras, e tenho a minha mãe como braço direito de produção, meu pai como consultor de negócios para me socorrer na parte administrativa. E como qualquer empresa ou profissão, nem tudo são só dobras e flores, pois também há dificuldades e problemas, que supero amando o que faço.

E lembram da pessoa feliz que citei acima?! Sim, eu continuo… Muito, muito feliz. E mais ainda porque em alguns dias embarco para a Terra do Sol Nascente em busca do começo de tudo mesmo, da raiz, da minha essência, da origem da minha família e do país onde o origami nasceu. Seguramente trarei na mala e no coração novos olhares para seguir minha profissão “dobrada”. E contarei especialmente aqui muitos detalhes desta incrível experiência que me aguarda… Até a volta!

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Adriana Suzuki - Artista

Formada em Odontologia/Odontopediatria, encontrou nas dobras dos origamis uma paixão que virou profissão. Aprendeu a arte com o seu avô quando era criança, e atualmente faz origamis e arte em papel para casamento, maternidade, vitrines e outros eventos comemorativos, que são elaborados e produzidos por ela.

2 thoughts on “Profissão “dobrada””

  1. Muito linda sua história.So somos felizes fazendo aquilo que de fato.amamos. Seus trabalhos são lindíssimos.Gosto muito tb de origami, pena que não tive oportunidade para de dedicar, mas mesmo.com 69 anos não vou desistir de aprender mais. Deus abençoe suas mãos para que seu sonho seja sempre real. Bjos

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