Sem verniz

A discussão sobre capturar a alma de alguém com uma câmera fotográfica já está um tanto desgastada. “Bullshit!” (palavras dela, não minhas, sobre o assunto). Afinal, fotografia é sobre o que é visível, é sobre superfícies. E superfícies podem dizer muito, sugerir emoção, contar histórias. Mas qualquer um que já tenha segurado uma câmera sabe o quão difícil é conseguir isso. A não ser, é claro, que a câmera em questão esteja nas mãos de Annie.

Nascida em Connecticut, Estados Unidos, em 1949, se tornou já nos anos 1970 uma cronista visual da cultura popular. Clicou celebridades (todas elas), artistas, homens e mulheres dos negócios, políticos, presidentes e rainhas. Algumas de suas fotos estão impressas em nossa memória, ainda que alguns não conheçam sua autora. Nem preciso colocá-las aqui para ilustrar o artigo. Basta dizer “Demi Moore grávida e nua na capa da Vanity Fair” ou “Whoopi Goldberg em uma banheira de leite” para que as fotos venham à mente. Não deve haver quem não conheça a imagem de John Lennon, deitado nu no chão de seu apartamento abraçando Yoko Ono, tirada poucas horas antes de seu assassinato.

O mais recente livro, Annie Leibovitz: Portraits 2005-2016, tem um título autoexplicativo – uma coletânea dos trabalhos recentes, sendo este o terceiro em uma série de publicações com os “greatest hits” do portfólio de um dos maiores nomes na história da fotografia. Com trabalhos editoriais e trechos de projetos pessoais, como a série em que Annie percorreu os EUA fotografando lugares e objetos de relevância na história americana, o livro merece um lugar nas bibliotecas de quem se interessa por fotografia.

Seu olhar, em grande parte documental (herança do aprendizado no início da carreira como fotojornalista), parece conseguir tirar o verniz das pessoas e revelar momentos autênticos, mesmo em situações planejadas. Até objetos inanimados parecem posar para ela, como se olhassem com orgulho e determinação para sua lente.

Minha foto preferida do livro é o retrato de Leonard Cohen, completamente absorvido em si mesmo, livre de poses ou artifícios. Enquanto tantos fotógrafos buscam construir imagens, ela – como uma verdadeira artista – está mais ocupada as desconstruindo. Fotografia é sobre superfícies, mas poucos tiram tanto delas como Annie.

Marcelo Salvador

Formado em design gráfico, Marcelo descobriu o gosto pela fotografia trabalhando como editor de arte na revista Vogue. O que era hobbie virou paixão e, desde então, Marcelo anda sempre com uma câmera em mãos, registrando momentos, lugares e pessoas. Autodidata, divide aqui seus cliques pessoais preferidos.