Tic-tac, tic-tac

O agora já aconteceu há um segundo. Aqui, uma meditação sobre a passagem do tempo.

O tempo voa: constante, invisível e implacável. O filósofo grego Heráclito imaginava o tempo como algo improvável de mudança. Cientificamente o tempo funciona como um plano de fundo evidentemente cadenciado a partir das batidas do relógio. Já para nós, a percepção do tempo sugere inconstância e ritmicidade.

O tempo passa: em momentos de intenso envolvimento – quando a conversa flui ou quando o trabalho é feito como se fosse diversão – o tempo se move em grandes parcelas, rápido e indolor. Na contramão, aguardar o semáforo ou na sala de espera do médico causam a sensação do tempo rastejante, que frustra planos futuros.

É fácil entender essas percepções como alucinações, já que os relógios seguem independente das nossas experiências. Mas essa inconsistência de realidade e o que criamos como fantasia vêm intrigando filósofos e artistas – especialmente porque a ciência moderna é capaz de marcar o tempo com muito mais precisão.

Parece que ocupamos um presente instantâneo que se move do passado ou do futuro, mas na verdade ele deveria ser só e apenas o “agora”. Mas que tempo ocupa o agora? Considere este evento simples: um cavalo galopa por 30 metros a sua frente. Você vê o cavalo e o ouve. Você sente as vibrações através de seus pés um pouco depois que ele já cruzou aquele pedaço de chão. Cada um desses impulsos viaja via neural para o seu cérebro, que os processa e os coloca em ordem. Tudo isso parece ser “agora”, mas, precisamente já é passado. Física e fisiologicamente é impossível viver o “agora”.

No contexto da realidade experiente, o horário do relógio é ficção. Quando o relógio toca, digamos, 15h. Isso quer dizer que, na verdade, às 15h já ficaram no passado. O movimento real do “agora” é tão rápido que a percepção humana não pode dizer com certeza o que é presente. O artista Muybridge demonstrou com 24 câmeras, em 24 instantes sucessivos que, sim, existe um momento imperceptível antes do que achamos o “agora”. Na época, as pessoas acharam suas imagens tanto informativas quanto inquietantes, já que capturavam a verdade das posições estranhas e desajustadas de um movimento evidentemente fluido e gracioso.

Os artistas muitas vezes têm prazer em expor essa variabilidade do tempo percebido. Escultura e literatura parecem especialmente adequadas ao esforço. O memorável Discóbolo – o lançador de disco do artista grego Míron – foi esculpido em cerca de 460 A.C. A escultura prende o disco rotativo ao corpo do Olimpo, peso equilibrado e músculos marcados, e antecipa a liberação do projétil. Mais ainda que seja estática, a obra não pode representar o agora, já que ela não está parada no momento “agora”.

Expressões coloquiais sobre a inconstância do tempo revelam uma visão profunda de sua maleabilidade desconcertante na experiência consciente. Sabemos que o tempo percebido cria seus próprios ritmos consequentes contra um instante, monótono e ilusório. Ou seja, o agora não é um instante, mas sim uma sequência que te traz para aqui “agora”.

Foto: Miguel Porlan

Unique Fashion Team

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