Upcycling e recycling já são realidade no Carnaval

É aquela época do ano aqui no Brasil e não pudemos deixar de pensar na questão de Upcycling e Recycling em meio à nossa maior festa, o Carnaval. E, para nossa surpresa, descobrimos que, de uma certa maneira, ambas já são realidade. Encontramos um texto do jornalista Aydano André Motta, escrito há um ano, que descreve a crise econômica como um divisor de águas dentro das escolas de samba. Um exemplo excelente é a substituição de penas naturais, uma vez que uma única pena de faisão chega a custar cerca de R$ 150 e 35 mil exemplares já chegaram a ser usadas em um desfile de uma única escola de samba… O texto fala sobre a importância da proveniência das penas (são utilizadas apenas as que caem naturalmente do pavão e outros tipos de pena natural são de criadouros regulamentados) e os malabarismos que os carnavalescos precisam fazer para substituir materiais de uma maneira que a beleza do espetáculo não diminua.

Renato Lage, que até ano passado fazia parte do Salgueiro e neste ano integra a Grande Rio, é considerado um dos melhores carnavalescos da atualidade. Ele se destaca pois é um mestre em reinventar materiais e utilizar objetos considerados pouco nobres (copos plásticos, garrafas pet, etc) em carros alegóricos conseguindo um efeito de riqueza, esplendor e brilho. Um exemplo ainda mais conhecido, Joãosinho Trinta, no Carnaval de 1974, ao se deparar com um orçamento reduzido utilizou tinta e purpurina, transformando forminhas de doces no pano de fundo das alegorias, conduzindo a escola ao título naquele ano. Uma frase incrível dita por Renato, merece destaque: “Nós nos acostumamos com orçamentos apertados e aprendemos a improvisar. O carnaval é a arte do possível. Damos nosso jeito para realizar o projeto e levar a escola para a avenida”. O texto termina dizendo que sustentabilidade e Carnaval ainda estão longe de caminharem juntos, porém, ainda que por motivos econômicos, as escolas foram obrigadas a fazer uma reinvenção dos materiais utilizando garrafas-pet, copinhos de café, copinhos de papel, plástico-bolha, palhas de aço, buchas e rolhas, por exemplo, substitutem paetês, cristais e pedras. Talvez a motivação econômica não os faça perceber que eles empregam sim medidas sustentáveis tanto de upcycling e recycling.

Antes de continuar, um pequeno parênteses sobre a diferença entre reciclagem e upcycling. O termo Reciclagem, muito mais conhecido, pelo menos aqui no Brasil, consiste no processo de minimizar desperdício e transformar materiais ou produtos de potencial utilidade, reduzindo o consumo de matérias-primas, de utilização de energia e a poluição do ar e da água, já que reduz a necessidade de tratamento convencional de lixo e a emissão de gases do efeito estufa. A reciclagem, porém, apesar de bem menos nociva do que a incineração de lixo, por exemplo, ainda utiliza alguns componentes químicos no processo. Já o Upcycling prega o reuso, a ressignificação de algo que aparentemente não tem mais valor. É a reutilização de um material que seria descartado. Ou seja, suas propriedades originais são mantidas, sem a necessidade de intervenções químicas. Por exemplo: sobra de retalhos de uma confecção podem se transformar em uma linda saia – a exemplo da marca holandesa Viktor & Rolf, que pratica o método em suas coleções de alta-costura desde 2016.

Voltando ao Carnaval… Que tal algumas palestras, aulas e encontros para que os integrantes da escolas de samba saibam o que é possível ser feito para minimizar o desperdício e a produção de lixo? Quem vai encarar? Sabrina?! Seria o máximo! Por que não utilizar marcas internacionais e nacionais que já praticam o reaproveitamento como exemplo e inspiração como a Ferragamo, que investe em pesquisa para criar novos materiais vindos de descartes de bagaço de frutas, o upcycling que a dupla Viktor & Rolf corajosamente emprega, a reciclagem feita Gucci, que vem mostrado uma série de iniciativas eco-friendly com o objetivo de reduzir o impacto sobre o meio-ambiente (inclusive através do redesenho das suas embalagens usando apenas papel 100% reciclado), ou a brasileira Insecta Shoes, que transforma peças de roupas usadas, garrafas de plástico recicladas em botas, oxfords, sandálias e slippers vegan.

Para nós, uma visão mais consciente, o reaproveitamento de materiais e compromissos sustentáveis são um caminho sem volta. Lançamos aqui o aqui o desafio, tanto para as escolas de samba quanto para as ONGs, apoiadores, pesquisadores e militantes sustentáveis: que tal um Carnaval 2019 com a consciência sustentável?

por Daniela Mollo

Fashion For Better

Fashion for Better é um um novo conceito na indústria da moda que visa fomentar o consumo consciente, unindo e desenvolvendo toda a cadeia desde o artesão, a matéria prima, o designer, a indústria e o comercial, conectando o produtor diretamente ao consumidor, assegurando a procedência ética e sustentável dos produtos, minimizando os maiores problemas da cadeia da moda, que são automação, lixo/ desperdício e trabalhos informais e escravo, validando o Made in Brazil para o mundo e criando um ciclo virtuoso para a cadeia produtiva da moda.

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