Viva a literatura francesa: 5 livros tem-que-ler

No seu último desfile de alta-costura (03 de julho), a Chanel recriou a fachada da Académie Française (uma das mais antigas instituições francesas, foi criada em 1635 sob o reinado de Luís XIII) no Grand Palais, e decorou as alamedas por onde as modelos passavam com as famosas banquinhas de livros a bordo do Sena. Essa homenagem me fez lembrar da importância da literatura francesa na história, mas também, em uma escala infinitamente menor, para mim.

Quando me mudei para Paris, há cinco anos, falava pouquíssimas palavras em francês – uma língua que sempre admirei, mas que jamais ousei. Em pouco tempo, percebi que, para falar e escrever bem (sou jornalista, afinal), precisava ler, ler e reler na língua de Molière. Comecei com textos durante meu curso de Français et Civilisation Française na Sorbonne, onde me encantei pela linguagem de Proust, a poesia de Baudelaire e as peças de Molière. Logo depois, comecei a montar uma biblioteca composta por clássicos que julgava indispensáveis e outras belas obras escolhidas com a ajuda do meu amor, que tem a literatura no sangue (ele é neto de Albert Camus, Nobel de Literatura).

Tudo isso para dizer que foi nesse período que li os melhores livros, os que ficarão para sempre na memória, e os que me fizeram amar e admirar a língua mais bela que existe. Como alguns amigos e familiares (sobretudo os que estão aprendendo francês) costumam me pedir para indicar livros, decidi listar aqui os que mais me marcaram – a maioria deles, sorte, são traduzidos em diversas línguas, incluindo o português.

Rien ne s’oppose à la nuit (Nada se opõe à noite), Delphine de Vigan

Um dos primeiros livros que li em francês, começa com a história pessoal da mãe da autora, que era bipolar. Uma sucessão de dramas marcam a sua vida (a sensação “não é possível que isso também aconteceu!” é recorrente durante a leitura), e por consequência a da autora – a primeira página já é uma facada. É um livro intenso, recheado por dificuldades e às vezes deprimente. Mas é também um lindo exercício de investigação e exteriorização, pontuado por uma sensibilidade crua de alguém que finalmente precisou conhecer o passado para poder entender e perdoar a sua própria mãe – não à toa, é um best-seller.

Le premier homme (O Primeiro Homem), Albert Camus

Fazia tempo que não chorava lendo um livro, até começar O Primeiro Homem, autobiografia inacabada de Albert Camus – o manuscrito foi encontrado no local do acidente que tirou a vida do autor precocemente
e foi publicado mais de 30 anos depois pela sua filha. Longe de “O Estrangeiro” ou “A Peste”, seus livros mais conhecidos, o romance conta a história de Jacques (Camus), que retorna à sua infância pobre na Argélia para entender da onde veio. As aventuras pelas ruas de Alger, o despertar de sua paixão pelo futebol, a ausência paterna (seu pai morreu quando ele tinha menos de um ano durante A Batalha do Marne na Primeira Guerra Mundial), a criação rígida por parte da avó (sua mãe era semi-analfabeta e quase surda-muda) e a libertação através dos estudos permitem ao leitor conhecer o jovem Camus em suas palavras mais cruas, já que ele nunca teve a chance de retrabalhar o texto. No fim, a emocionante carta ao seu professor Louis Germain, que cedo constatou o potencial de Camus e convenceu sua família a mantê-lo na escola apesar das dificuldades financeiras.

Madame Bovary, Gustave Flaubert

Clássico absoluto da literatura francesa, Madame Bovary é um deleite não só para quem gosta de ler, mas também aprecia uma bela escrita.

Publicado inicialmente em partes na Revue de Paris, o livro conta a história de Emma Bovary, uma mulher que faz de tudo para escapar do vazio e da monotonia da vida provinciana de uma pequena cidade da Normandia e que acaba encontrando em seus amantes uma maneira de escapar ao destino banal que lhe foi imposto – isso no contexto da metade do século 19. Me apeguei tanto à personagem que, mesmo
conhecendo o fim trágico do romance, passei as últimas páginas do livro torcendo para que seu destino fosse diferente!

La promesse de l’aube (Promessa ao amanhecer), Romain Gary

“Avec l’amour maternel, la vie vous fait à l’aube une promesse qu’elle ne tient jamais” (em tradução livre: “Com o amor materno, a vida te faz ao amanhecer uma promessa que ela nunca manterá). Essa frase já vale a leitura do romance autobiográfico, que conta sua infância e juventude do escritor, portadas pelo amor incondicional da mãe, uma atriz russa que emigrou para o sul da França com o filho pequeno.

Narrada boa parte com a ingenuidade cativante de uma criança, que sente a expectativa e o peso de uma mãe que prevê e deposita todas as suas fichas num futuro grandioso para o seu filho, a história é cheia de viradas, de conquistas, recomeços e uma boa dose de emoção.

Bonjour tristesse, Françoise Sagan

Confesso que decidi ler esse livro incentivada pelo excelente título.

O romance foi escrito em 1953, quando a autora, então com 17 anos de idade, acabara de ser reprovada no equivalente do vestibular para a Sorbonne, em Paris. Durante as férias de verão daquele ano, transformou a frustração e suas experiências de uma adolescente no best-seller que conta justamente a história dessas férias de verão no sul da França, seu pai playboy, sua madrasta e uma amiga de sua mãe, já falecida, que chega para desestabilizar o equilíbrio conquistado e roubar a atenção do seu pai. Amoral e destilando um tédio precoce em relação ao mundo, o livro foi julgado escandaloso na época.

La Reine Margot (A Rainha Margot), Alexandre Dumas

Gosta de história? Esse livro é para você. O autor de Os três mosqueteiros conta a história do casamento entre Marguerite de Valois (filha de Henri II e de Catherine de Médicis) com Henri de Navarre (futuro Rei Henri IV), uma aliança cujo objetivo era estabelecer a paz entre católicos e protestantes em uma época marcada pelas guerras religiosas – ela era católica e ele protestante. Mas quando toda a França festeja a união, um massacre surpresa acomete todo o país. As infidelidades do casal, a personalidade controladora de Catherine de Médicis, a recusa da Liga Santa de ter um Rei protestante no poder…

Vitória Moura Guimarães - Jornalista

Jornalista, formada pela PUC-SP e especializada em Moda pela faculdade Santa Marcelina, se mudou para Paris por amor e se apaixonou pela cidade.

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