Depressão Desdobrada

Minha mãe (uma monja tibetana de tão calma e serena) sempre me conta que eu já nasci sorrindo – no hospital, quando trouxeram a cestinha comigo, minha primeira ação foi sorrir para ela. Voltando no tempo, lembro que quando criança sempre fui extremamente geniosa, brincalhona, extrovertida, bravinha e muito falante. Amava brincar sozinha com a coleção de borrachas e miniaturas, fazer minhas lições de casa com muita cor e capricho. Depois passei a desenhar, e sempre fazer arte com as mãos: origami, bijuterias, feltro e etc. Não é para menos que escolhi ser dentista, e depois largar tudo para me encontrar nos origamis e na arte com papel.

Respiro e vivo criatividade o tempo todo, desde sempre. Talvez por isso jamais pensei que pudesse conhecer de perto a depressão profunda, tampouco as crises de pânico. Fácil é falar de felicidade, cores e vida… Mas quando o assunto são fragilidades, transtornos psíquicos: tabu. Pois, vamos lá, resolvi ajudar a quebrá-lo e tentar ajudar muitas pessoas que por ventura estejam neste mesmo enfrentamento, sem saber o que está de fato acontecendo. Afinal, como o historiador Leandro Karnal diz: a depressão será a doença do século – para mim; já é: ela atinge 322 milhões de pessoas no mundo, ou seja, 4,4% da população mundial, e 5,8% dos brasileiros, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Outras estatísticas alarmantes: o Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%. A cada 40 segundos, alguém no mundo interrompe a própria vida – segundo a OMS, o número de óbitos autoprovocados é significativamente maior que aqueles causados por homicídio: 800 mil por ano, contra 470 mil. São mortes prematuras que poderiam ser evitadas. Mais: a depressão é considerada a quarta principal causa de incapacitação. Uma revisão de casos conduzida pela OMS com dados de 15.629 suicídios ilustra bem essa situação: 35,8% das vítimas tinham transtorno de humor; 22,4% eram dependentes químicas; 10,6% tinham esquizofrenia; 11,6%, transtorno de personalidade; 6,1%, transtorno de ansiedade; 1%, transtorno mental orgânico (disfunção cerebral permanente ou temporária que tem múltiplas causas não psiquiátricas, incluindo concussões, coágulos e lesões); 3,6%, transtorno de ajustamento (depressão/ansiedade deflagradas por mudanças ou traumas); 0,3%, outros distúrbios psicóticos, e 5,1%, outros diagnósticos psiquiátricos. Os 3,1% restantes não significam ausência de doença mental, mas a falta de um diagnóstico adequado. Todos esses transtornos são tratáveis com acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Porém, esbarram no preconceito não só de pacientes, mas de familiares e até de profissionais da saúde.

A minha primeira crise de depressão aconteceu em 2002. Estava no último ano de faculdade, e perdi meu avô paterno (o “ditian” que me ensinou o origami, e também cuidou de mim quando eu era bebê). Durante essa crise, eu ia para as aulas e socializava, apenas passei a falar pouco (o que não é normal para mim..rs!). Quando estava em casa, apenas dormia e chorava muito. Depois fiquei encanada com uma espinha no rosto. O que fez procurar uma dermatologista que receitasse o Roacutan (um remédio mega forte, que acentua ainda mais o quadro depressivo). Fiquei por longos meses no ciclo: obrigações universitárias, socializar o necessário, chorar, dormir, tomar o remédio da espinha. Isso durou uns 6 meses. Até que eu fui buscar ajuda na acupuntura, florais e psicanálise. Durante esse tempo de crise, eu não sabia o que de fato estava acontecendo comigo. Com as agulhas, florais e sessões intensas de análise fui melhorando cada vez mais, e nem entrei no processo medicamentoso. E o que coroou a minha melhora foi ter ido para Ilha Grande/RJ para a viagem de formatura. Foi libertador: usar biquini, entrar no mar, e sentir que as pessoas gostavam de mim do jeito que sou, com ou sem espinha. E modéstia à parte, nesta época eu tinha um corpo lindo a là Isis Valverde…. rs! Voltei desta viagem muito falante, acho que falei o equivalente aos seis meses de silêncio. Foi a partir daí que comecei uma análise mais intensa, várias vezes por semana. Foi incrível conhecer o processo analítico que me transformou numa pessoa melhor, sabe? Através da psicanálise pude ser dentista e hostess ao mesmo tempo, e até me descobrir como artista dos origamis. Fundamental, pois pude sentir o quanto era sensível perante ao mundo, e eu sozinha jamais conseguiria administrar esta sensibilidade de forma tão positiva, agregadora e construtiva.

Porém, 16 anos de sessões intensas de análise não me blindaram de ter uma segunda crise de depressão profunda, com uma força “tsunami”. Nem uma família que me ama, trabalhar com o que amo, ser rodeada de grandes e valiosas amizades, fazer atividades físicas semanalmente. Nada, nada disso me isentou desta crise horrorosa deste ano. Por quê? Simplesmente porque a depressão é um processo químico, com alterações do circuito neural. Como foi a minha segunda crise depressiva? Desde outubro do ano passado, eu vinha num ritmo intenso de trabalho. E por amar o que eu faço, não sentia nada de ruim. Estava extremamente feliz com a demanda de produção do Natal. Produzia incansavelmente, acordava às 3h ou 4h da manhã e seguia firme e forte até às 23h. Fiquei neste ritmo em novembro, dezembro. Dei uma pausa nas redes sociais em janeiro, mas não tirei férias, aproveitei para organizar, planejar o ano seguinte… E assim fui até março deste ano. Aos poucos, fui entrando numa neurose, do tipo: esta flor ficou torta, a cliente não vai gostar, este tsuru ficou amassadinho, a cliente vai reclamar. Mas era apenas minha neura, e as clientes me confortavam dizendo que elas amaram tudo e me parabenizavam pelo trabalho impecável. Neste mês de março, eu enfim tinha encontrado o apartamento dos meus sonhos. E estava extasiada de felicidade por conquistar o tão aguardado momento de morar sozinha. Tudo foi perfeito, e se encaixando para eu me mudar rapidamente. Mas, de repente, comecei a me sentir sozinha no mundo, trabalhar já não me encantava, acordar era um martírio. E tudo foi ficando sem cor, sem vida, e eu me desesperei com a mudança, e com a diminuição dos pedidos neste mês. Aos poucos fui me afundando cada vez mais, até sentir que viver era algo que eu não merecia. Foi aí que as ideias de suicídio começaram a aparecer. Pedi socorro na análise durante duas semanas, e era confortada apenas com as palavras na sessão. Parei de trabalhar, emagreci muuuuuito em poucas semanas, não tinha prazer algum em comer (e olha, eu amo comer), parei de praticar atividades físicas, apenas sentia vontade de dormir. Nem escutar músicas que eu tanto gosto, pois pensava que eu não podia sentir qualquer bem estar. Tive crises de pânico bizarras, e me sentia perseguida o tempo todo. Fui caminhando mais e mais para o fundo do poço. E saí completamente da roda gigante que era a vida…. E eu de fato não queria mais girar nesta roda. Simples assim, meu maior desejo era ficar em casa, sem trabalhar, apenas dormindo o dia inteiro, o mês, o ano. Planejando como eu iria me matar. Dia 01 de abril de 2018, decidi me ausentar de todas as redes sociais (eu que sou uma pessoa online, full time) e parei de responder às milhões de mensagens que chegavam no meu celular. Me desconectei geral. No dia seguinte, 02 de abril, de manhã, estava focada em tirar a minha vida: tentei o suicídio da forma mais trágica: cortei meus pulsos. Sim, cortei meus dois pulsos. A sorte foi que na hora do ato, liguei para o meu irmão que é médico cardiologista e mora fora de São Paulo, ele atendeu e conseguiu orientar a funcionária da loja dos meus pais (Edlaine, uma irmã para nós). Ela chegou na minha casa em segundos e fez os primeiros socorros. Aí, vocês podem imaginar o quão sofrido e doloroso foi para a minha família, para mim, e para as pessoas ao meu redor vivenciar esta trágica consequência de uma depressão profunda e pânico, subestimada pela psicanálise…. Depois dessa tentativa de suicídio, meu irmão e a amiga psiquiatra dele entraram com as medicações necessárias. No mês de abril e maio fui a muitos hospitais, vi médicos e fisioterapeutas, porque além da depressão, tive que cuidar das minhas mãos. E seguramente sou abençoada, porque todos me acolheram, cuidaram e ainda cuidam de mim com imenso carinho. Aliás no “tsunami” as pessoas desconhecidas foram extremamente cuidadosas comigo, sem mesmo eu ter feito nada por elas. E isso é presente de Deus, para me proteger, né? Não tem outra explicação! Amigos, clientes, parceiras de trabalho mandavam mensagem o tempo todo. Sou realmente muito, muito, muito AGRADECIDA por isso de coração. Fim de maio, eu comecei a sentir vontade de sair voltar a trabalhar, retomar contatos….viver! E ter RENASCIDO foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Hoje, acordo cada dia dando bom dia para VIDA, agradecendo por poder ir até à padaria. Vivo cada dia, feliz, em sua plenitude.

As prioridades mudaram, assim como os valores. Aceitei que tenho sim fragilidades, e não sou forte o tempo inteiro. Hoje administro melhor minha agenda para não atingir a exaustão mental, faço questão de estar com as pessoas que amo semanalmente. Tornei minha história pública, e com isso venho recebendo mais e mais carinho diariamente. As minhas mãos ainda têm algumas limitações, mas nada que me impeça de fazer o que eu quero, e o que faz bem. NADA! As cicatrizes nos pulsos me lembram o quanto preciso agradecer por estar VIVA, e ficarão comigo até o dia em que irei por fim conhecer a brilhante Kate Spade. Continuo me tratamento com meus amados fisiatra e fisioterapeuta. E recentemente me indicaram um psiquiatra ótimo, que gostei muito. Tomo remédios diariamente, voltei com tudo para as atividades físicas. Meu trabalho anda cada vez mais colorido, e agora além de fazer artes com papel, eu abracei a causa do #setembroamarelo em prol da prevenção do suícidio, e estou nesta de corpo de alma. E dia 18 de setembro (terça-feira das 19:00h às 21:30h) farei o primeiro encontro REAL da #depressãoDESDOBRADA, no Pedrotti Flores Café, com a participação da minha querida amiga Tânia D’Alessandro, uma super empreendedora e pessoa incrível, que está superando a depressão, e meu amado mestre de superioga Paulo Andrade, que irá nos ensinar técnicas para acalmar nossa mente. Estamos fazendo de tudo, tudo mesmo para que seja muuuuuiiiitoooo especial, e o primeiro de muitos. Acompanhem no meu instagram @adrisuzuki, pois em breve divulgarei todas as informações do encontro. Te espero por lá!

Adriana Suzuki - Artista

Formada em Odontologia/Odontopediatria, encontrou nas dobras dos origamis uma paixão que virou profissão. Aprendeu a arte com o seu avô quando era criança, e atualmente faz origamis e arte em papel para casamento, maternidade, vitrines e outros eventos comemorativos, que são elaborados e produzidos por ela.

1 thought on “Depressão Desdobrada”

  1. Creio que você gostaria de saber que superei a depressão e crises de pânico fazendo origami, acompanhando você com seus maravilhosos trabalhos, tentando reproduzi-Los com variações (afinal sou uma novata), para mim mesma. As guirlandas lindas! Isso 2016, 2017… ainda busco o origami quando a situação pede. Também recorri à psiquiatria e medicamentos. Muito feliz por você e pelo seu renascimento. Continue minha fonte de inspiração. Beijos.

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